Grupos formados somente por mulheres refletem sobre seus direitos na música

Em busca de representatividade, público feminino ocupa os espaços artísticos
09/02/2019 as 23:40

RIO — Do saxofone à alfaia, do triângulo à guitarra. Nas rimas, partituras e vocais. As mulheres estão ocupando o espaço musical com intensidade em diferentes estilos.

Enquanto o país registra, no primeiro mês do ano, mais de 120 mulheres mortas e 67 tentativas de homicídio, segundo levantamento da Universidade de São Paulo (USP), elas cantam por respeito à existência e às liberdades sexual e de expressão. Militam por tolerância religiosa, questões de classe e sobre as formas de se relacionar. O grito de ordem é representatividade, e elas usam suas vozes para repudiar qualquer tipo de comportamento que considerem machista ou opressor.

No choro, histórica e majoritariamente constituído por homens, nomes como Chiquinha Gonzaga e Lina Pesce compõem a lista de referências das meninas do Chora Quarteto. O grupo, integrado por Bia Nascimento (violão), Carolina Chaves (flauta), Geiza Carvalho (percussão) e Laila Aurore (cavaquinho), surgiu em 2018 a partir do anseio de criar um espaço no qual se sentissem acolhidas para tocar choro. A ideia nasceu com uma roda didática para musicistas, realizada mensalmente, com o propósito de contribuir para maior representatividade feminina nos espaços.

— Uma roda só de mulheres é muito mais do que resistência, é a afirmação do nosso direito de existir — comenta Geiza Carvalho.

As meninas do quarteto comentam sobre a dificuldade para as mulheres acessarem as rodas de choro.

— Já que os homens “não nos deixam” entrar na roda, nós fazemos a nossa — comenta Laila Aurore.

Em janeiro, em um dos encontros no Bar Araujolândia, na Rua Ubaldino do Amaral 5, no Centro,o grupo contou com a participação surpresa de Mayra Andrade, expoente da música internacional que acompanhou Gilberto Gil na turnê “Refavela40”. O Chora Quarteto se lança institucionalmente no dia 10 de março, no Imperator, no Méier, na Zona Norte.

As Mulheres de Buço encontraram na música uma forma de amplificar suas ideias. Em suas composições, elas abordam questões como sexualidade e a exposição e aceitação do próprio corpo. E se valem da comicidade para criticar o status quo.

Mulheres de Buço. Grupo se juntou a partir de uma inquietação em comum: o espaço que as mulheres ocupam, tanto na vida quanto na arte: Manuela Llerena (à esquerda), Lilia Wodraschka, Lucia Barros, Clarice Sauma e Beatriz Morgana. Foto: Marcos Ramos / Agência O Globo

Mulheres de Buço. Grupo se juntou a partir de uma inquietação em comum: o espaço que as mulheres ocupam, tanto na vida quanto na arte: Manuela Llerena (à esquerda), Lilia Wodraschka, Lucia Barros, Clarice Sauma e Beatriz Morgana. Foto: Marcos Ramos / Agência O Globo

O questionamento sobre a dominação masculina aparece, por exemplo, em uma das letras da banda: “Quer dizer que tem um cara querendo mandar em mim? Ah, isso é o fim!”. Outras composições ironizam o julgamento sobre o comportamento da mulher, com versos como “Tu sabe da minha vida, da minha boca ou do meu pelo? Tu tá cheio de opinião, mas nem consegue achar meu grelo. Acha que eu sou o quê?”.

A formação teatral valoriza as performances do grupo de funk pop formado por Beatriz Morgana, Clarice Sauma, Lilia Wodraschka, Lucia Barros e Manuela Llerena, que têm entre 23 e 25 anos. O grupo, que se declara como feminino e feminista, “divas, bagaceiras e do open bar”, acredita que o feminismo é algo plural.

— Não pretendemos abarcar toda a variedade do movimento, pois temos limitações em nosso recorte de privilégios. Nossa intenção é criar diálogo com as multiplicidade de vozes — comenta Lúcia Barros, ao reconhecer que o feminismo tem ganhado complexidade para abarcar mais diversidade e contemplar mais mulheres.

— Tentamos refletir em nosso trabalho que tipo de feminismo desejamos construir. Ainda precisamos falar sobre o óbvio — declara Clarice.

Inspiradas por artistas como Karol Conka, Pussy Riot, Frida Kahlo e Karina Buhr, as meninas percebem ainda uma certa censura e deturpação da mensagem que propagam.

— Existe um certo feminismo comercial que vende a imagem da mulher batalhadora, que trabalha e é dedicada. Mas se choca demais, não serve —acredita Lilia.

No rap, outras perspectivas entram em discussão. Principalmente pelo lugar de fala ser a favela, como no caso das meninas da ABRONCA, May e Jay. Nascidas e criadas no Vidigal, elas começaram cedo. Através das atividades do grupo teatral Nós no Morro, foram descobertas por um produtor de selo inglês. Lançaram-se no mundo, com uma turnê pela Europa, ainda como Pearl Negras, com formação em trio e participação de Slink.

Ser referência no território foi fator decisivo para a continuidade do trabalho.

— Ver as crianças empolgadas, acreditando em seus sonhos, aceitando seus corpos e tendo nosso som como inspiração é algo que nos deixa muito felizes — diz May.

Instrumentistas se destacam em diferentes gêneros

Desde pequena, Raquel Poti sempre via homens tocando nas rodas de choro, samba e grupos de forró. Não sentia que era incentivada a participar desses espaços, por mais que fosse apaixonada pela música.

— Tinha a sensação de que não seria boa o suficiente para estar no palco. Naquela época não percebia muitas formas de me inserir no meio musical — conta.

Hoje, aos 35 anos, além de cantar, ela toca zabumba no Flor de Manacá, grupo de forró integrado também por Norma Nogueira (voz e sanfona), Iara Cassano (voz e triângulo) e Courtney Allen (voz e pandeiro).

— Quando tocamos, percebemos que as meninas se sentem à vontade. Nosso intuito é justamente criar um espaço acolhedor para todos brincarem o forró — diz.

Flor de Manacá. Grupo cria ambiente brincante cria acolhimento nos espaços de forró Foto: Divulgação

Seus shows convidam o público a uma viagem pelo universo da música popular nordestina, que esquenta o salão com xote, baião, forró, coco, xaxado e quadrilha.

— A nossa capacidade é testada a todo momento. É como se achassem que não somos boas o suficiente. Mas eles podem se surpreender, quando performamos ainda melhor e criamos um movimento plural de integração feminina — afirma Raffaella Goi, multi-instrumentista que toca trompete na fanfarra carioca Damas de Ferro.

A formação do grupo não é simplista. Os instrumentos de sopro e percussão dançam nos ombros e braços das damas que tocam de “Lamento sertanejo” (Dominguinhos) a “Brooklyn” (Youngblood Brass Band). As composições autorais começaram a surgir com inspirações diversas, casos de “Ovulação”, de Michele Krimer, e “Olá”, de Raffaella Goi.

Damas de Ferro. Do sopro à percussão, mulheres tocam ritmos diversos na fanfarra Foto: Divulgação

Carol Schavarosk, que toca bombardino, é uma das fundadoras da fanfarra. Ela conta que 14 mulheres já tocaram simultaneamente na banda. O número também marca as duas semanas que o grupo ficou em turnê nos EUA para o Honk Festival, em 2017, e no interior de São Paulo, em 2018. Atualmente, são nove integrantes: Ana Jenné  (trombone), Débora Caniçali (saxofone), Carol Schavarosk (bombardino), Irene Milhomens (trombone) Michele Krimer (sousaphone), Natália Januzzi (alfaia), Raffaella Goi (trompete), Simone Cruz (alfaia) e Thaís Bezerra (caixa).

— Muitas instrumentistas têm no carnaval o primeiro contato com a música. Cada vez mais percebemos a participação das mulheres nesses espaços, e isso é lindo — afirma Michele.

A fim de protagonizar o sexo feminino no cenário do samba, as meninas do Samba Que Elas Querem evocam bambas como as tias Surica e Ciata, Dona Ivone Lara, Elza Soares, Clara Nunes, Leci Brandão e Jovelina Pérola Negra.

— Tocar samba entre mulheres afirma nossa capacidade e mostra para outras que é possível criar esse movimento feminino na música — declara Júlia Ribeiro, que além de cantar toca conga e caixa.

Samba Que Elas Querem. Versão feminista de “Mulheres”, de Martinho da Vila, vira hit Foto: Divulgação

Participam ainda do grupo Angélica Marino (tantan), Barbara Fernandes (violão e voz), CecÍlia Cruz (cavaco e voz), Giselle Sorriso (surdo e repique), Karina Neves (flauta transversa), Mariana Solis (agogô, caixa e voz) e Silvia Duffrayer (pandeiro e voz).

O grupo ganhou as ruas e redes sociais pela adaptação da letra de “Mulheres”, de Toninho Geraes, sucesso na voz de Martinho da Vila. A versão, de autoria de Silvia Duffrayer e Doralyce, apresenta a mulher como dona de seu caminho e seu corpo.

Confira a letra da versão feminista de "Mulheres":

Nós somos Mulheres de todas as cores
De várias idades, de muitos amores
Lembro de Dandara, mulher foda que eu sei
De Elza Soares, mulher fora da lei
Lembro de Anastácia, Valente, guerreira
De Chica da Silva, toda mulher brasileira
Crescendo oprimida pelo patriarcado, meu corpo
Minhas regras
Agora, mudou o quadro

Mulheres cabeça e muito equilibradas
Ninguém tá confusa, não te perguntei nada
São elas por elas
Escuta esse samba que eu vou te cantar

Eu não sei porque tenho que ser a sua felicidade
Não sou sua projeção
Você é que se baste
Meu bem, amor assim quero longe de mim
Sou mulher, sou dona do meu corpo
E da minha vontade
Fui eu que descobri Prazer e Liberdade
Sou tudo que um dia eu sonhei pra mim

Os sorrisos da "primavera solar"

A arte é considerada um dos espaços mais democráticos de inserção social. A música tira as pessoas do anonimato e dá visibilidade social a quem passa apagado em outras esferas. Acreditando nisso, Doralyce Gonzaga, cantora, compositora e ativista pernambucana veio para o Rio de Janeiro em 2014 amplificar sua voz e levantar suas bandeiras.

Compositora do hit

Advogada, formada pela UniNassau, é considerada uma das principais artistas do movimento afrofuturista — percepção artística que mistura elementos sobre ancestralidade com a linguagem high tech —, sendo objeto de estudo em pesquisa de doutorado da Universidade Northwestern, em Chicago (EUA).

O som de Doralyce envolve beats e espiritualidade, questionamentos sobre o corpo, padrão de beleza e intolerância religiosa. Suas composições pautam democracia, reforma agrária e racismo. Com o hit “Miss beleza universal”, a artista percorre a Europa ao lado de Bia Ferreira, outra voz potente na cena musical.

— É muito especial descobrir esse lugar na música de intelectual preta, de mulher pensante. Chamamos esse movimento, de um jeito carinhoso, de primavera solar. Esse posicionamento de mulheres latino-americanas na arte e a ascensão delas em todos os espaços — analisa Doralyce, para quem o assassinato da vereadora Marielle Franco em março de 2018 também contribuiu para o crescimento da apropriação feminina da arte.

Em agosto de 2018,Caetano Veloso fez uma postagem em seu Instagramdizendo “Fiquei com vontade de pedir a todos os brasileiros para ouvirem Bia Ferreira”, depois de tê-la ouvido pessoalmente cantar. A cantora, compositora e multi-instrumentista de 25 anos define sua arte como MMP: Música de Mulher Preta.

— A minha arte tem como objetivo conscientizar a respeito das demandas de luta do movimento antirracista no Brasil — reflete Bia, que começou a carreira aos 15 anos.

Bia Ferreira. A artista carioca viraliza na internet com música sobre cotas e desigualdade Foto: Divulgação

Autora da música “Cota não é esmola”, ela questiona em seus versos os privilégios econômicos e a ascensão social. “Experimenta nascer preto e pobre na comunidade. Você vai ver como são diferentes as oportunidades. E nem venha me dizer que isso é vitimismo. Não bota a culpa em mim pra encobrir o seu racismo!”.


Fonte: O Globo

Foto: Marcos Ramos / MARCOS RAMOS